Categorias: Outras histórias Também sou do mundo

Uma história real sobre amor e filhos da Guerra

Walter era alemão e vivia feliz com a esposa e seu único filho no Sul do Brasil. Em 1939, ele decidiu ir visita os pais e irmãos na Alemanha e pela Segunda Guerra Mundial ter oficialmente iniciado, não conseguiu voltar mais. Chegou a ser preso em um campo de concentração, e a história da família, que parecia ser predestinada, tomou outro rumo. A Carla, neta de Walter, irá compartilhar os detalhes desta emocionante história que ainda marcará muitas gerações da família Kriewall.

“Meu opa (avô em alemão), nasceu na Europa no início do século XX e então veio morar no Brasil, deixando a sua família toda na Alemanha. Morava em Blumenau (SC), uma cidade fundada por alemães, que por sinal até hoje carrega fortemente as tradições do país.

No Brasil, ele conheceu a minha avó Carolina, com quem se casou na década de 30. Desta união nasceu Guenther, o seu único filho (e o meu pai). Eterno amor! Naquela época nada era muito fácil no que diz respeito à comunicação. O relacionamento com a Alemanha acontecia por cartas, que demoravam para chegar. A fotografia era algo sofisticado, que exigia tempo e dinheiro para se fazer com qualidade. As viagens eram feitas de navios, não eram nada confortáveis e demoravam dias e mais dias para se chegar no velho continente. Era natural que a saudade apertasse. A família alemã, além de tudo, é muito unida.

Em 1939, o opa Walter decidiu voltar à Alemanha para visitar os seus pais e irmãos, contudo durante esta viagem, a guerra foi declarada e ele, como cidadão alemão, sem opção de escolha, foi obrigado a ficar no país e lutar como qualquer outro cidadão.

Parte deste período tenebroso, ele conseguiu residir em uma pensão com uma conhecida. Porém, depois de alguns anos, ele acabou tendo que ir para as batalhas. Foi preso por ingleses num campo de concentração na Holanda e nunca mais voltou para a antiga cidade.

Walter somente conseguiu sair do campo de concentração quando os canadenses invadiram a Holanda e libertaram os alemães. Depois de 8 anos de angústia pela espera de um pai e um marido que nunca chegava (e dele também que foi obrigado a se separar da família, lutar sem estrutura e conviver com a dúvida da sobrevivência), conseguiu retornar ao Brasil.

Foram inúmeras cartas e pedidos de socorro ao consulado e ao Presidente da República. Muito tempo se passou depois disto. Em 2002, sentado junto com a família, meu pai abriu uma correspondência vinda da Alemanha, com um remetente desconhecido. Ao abrir o envelope caiu uma fotografia de um casal com a sua filha e meu pai comentou: “Nossa, a fisionomia deles parecem com a dos Kriewall” (nossa família)!

Aquele senhor da foto era o meu tio Klaus, filho do meu avô Walter com a moça da pensão. De ambas as partes acreditamos que ele nunca soubera da existência de Klaus. Diante da pressão da guerra naqueles tempos e das incertezas de retorno e sofrimento, Klaus foi um “filho da guerra”.

Klaus era parecidíssimo com o meu avô, mais até do que o meu próprio pai. E a carta contava a história do filho daquela mulher da pensão. Ela se casou quando estava grávida do meu tio e o marido dela assumiu o bebê. Klaus, depois teve mais irmãos, frutos deste mesmo relacionamento.

Apesar de Klaus sempre se achar muito diferente dos demais irmãos, nunca lhe passou pela cabeça a possibilidade de não ser filho daquele relacionamento. A verdade somente veio à tona, quando ela faleceu. Alguns vizinhos deram informações, e Klaus encontrou nos pertences da sua mãe uma foto com o nome do meu avô e alguns dados do Brasil. Após pesquisas na internet, encontraram a gente.

Nesta carta havia um número de telefone, para o qual ligamos e fizemos o primeiro contato com a família alemã. No ano seguinte, vieram ao Brasil e foi um encontro muito emotivo. Foram recebidos com muito carinho!

Eles voltaram ao Brasil em tantas outras oportunidades, assim como também fomos visitá-los em Aschafemburg (cidade próxima de Frankfurt) mais de uma vez. Infelizmente, tanto o meu pai quanto o tio Klaus já faleceram, mas ainda mantemos contato com minha tia e a minha prima, filha de Klaus. Hoje nos restam lembranças da história da nossa família, de uma história de vida, dos filhos de guerra”.

 Por Carla Kriewall, guia de turismo, de Blumenau.

Comente! via Facebook