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“O que aprendi sobre a fé ao visitar a Índia”

A Luciana esteve na India para aprender mais sobre os fortes elos culturais e religiosos do país. Fez descobertas incríveis sobre as diferentes formas de olhar a vida e o desapego ao poder e aos bens materiais. Ela também fez uma reflexão profunda sobre o que vivenciou e, com palavras doces, empoderou a fé, que muitas vezes nos falta, neste mundo de desentendimentos.

Taj Mahal, na Índia
Vista do Taj Mahal

“Índia. Cheia de contradições. De cores. De odores. De sorrisos e diferenças. Onde a dor convive com a alegria. E a miséria absoluta, em sua resignação, com a tecnologia e o luxo excepcional. Sempre extremos. Mas talvez o que mais tenha me encantado ao olhar as pessoas, as paisagens, ouvir os sons, o ruído desordenado, os milhões de veículos dividindo as mesmas faixas de rolamento (e incrivelmente não colidindo), seria a fé. Sempre ela. Em meio aos maiores desafios, dentre os temores mais recônditos e constantes no coração humano, a necessidade intuitiva de procurar Deus. Sob qualquer roupagem ou título, para enxugar lágrimas e conceder esperança a quem muitas vezes nada tem. Nem mesmo pão.

Variedade de temperos vendidos na Índia
Temperos vendidos na Índia

Religião na Índia

Em sua maioria, os indianos são adeptos do Hinduísmo. E este não é simplesmente uma religião, mas um conjunto de regras de conduta, hábitos e crenças de cunho espiritualista. É o modo de explicar o início dessa cultura e mantê-la viva. O Hinduísmo estabelece a divisão entre as pessoas sob o regime de castas, crê na reencarnação e se exterioriza através de múltiplos deuses (a minha humilde interpretação sobre o que aprendi). Lá estão homens, mulheres, casais e suas gerações vivenciando diariamente a religião, as poéticas histórias cheias de ensinamentos, aprendendo sobre os seus dons e buscando a proteção.

A deusa Dhurga é o símbolo da energia feminina. Guerreira, protetora e mãe de deuses. Vimos uma pequena “procissão”, onde a sua imagem era carregada em uma espécie de andor. Mulheres com seus saris coloridos. Crianças sorrindo, correndo com seus pés descalços, todos ali cheios de fé e alegria em busca do acolhimento e auxilio naquilo que possuíam, ou no que faltava. Foi impossível não me sentir contente e não ter uma profunda empatia por aquelas pessoas. A algazarra me fez lembrar da minha infância, no interior de São Paulo, das procissões com a santinha sendo carregada por fiéis em meio à flores, velas e orações.

O mesmo encantamento tive com os homens, que não cortam os cabelos e usam grandes turbantes e barbas (sikhs). Seguem os ensinamentos do Guru Nanak e veneram o livro sagrado (Guru Granth Sahib). Literalmente, um grande livro que fica sobre um altar coberto nas residências e é usado quando a noite cai, na hora de dormir. Pela manhã, ele volta para o altar, como se fosse um ser vivo. Os seguidores da região pregam o respeito, serenidade, seriedade e a caridade. Eles atendem toda a comunidade diariamente servindo graciosamente refeições, sem preconceitos ou diferenças de quaisquer espécies.

Muito me intrigou os peregrinos, conhecidos como sadhus (“homens santos”), pessoas idosas que ao final de uma jornada de vida (onde trabalham, criam filhos, etc) passam a perambular sem rumo, com roupas escassas alaranjadas, em uma busca de iluminação espiritual. Um símbolo de desapego a tudo que ela representa (posse, prazer, juventude efêmera, dinheiro, conforto, poder, etc). Impossível não me questionar sobre o que realmente importa na vida e que preciso encontrar.

Sadhus na Índia
Típico Sadhu

Jainistas, adeptos da não violência, vestem-se com parcos trajes, são vegetarianos e muitos morrem fazendo jejum porque a morte é uma honra e uma forma de ascensão espiritual. Preocupados em não matar quaisquer formas de vida, quaisquer insetos, animais, chega até a ser uma verdadeira obsessão com isso. Além de ouvir histórias sobre eles, quando estava na Índia, houve grande divulgação da morte de uma mocinha, em virtude de jejum prolongado. Algo estranho para nós, ocidentais, tamanho desprendimento da matéria.

Vi muitos muçulmanos, suas mesquitas, soube dos parsis, que quando morrem deixam seus corpos expostos para serem decompostos pelos pássaros. Rituais para desintegração da matéria, já que as almas não mais neles se encontram retidas. Ouvi um relato de que um magnata indiano era dessa religião, e para mim, não deixou de ser surpreendente a narrativa do modo do “sepultamento”. E a contradição de alguém tão apegado ao dinheiro, tendo-o de modo vultoso, dispor de seu corpo físico, ainda que inerte, às aves de rapina.

Poucos são budistas. Mas também foi mágico entender os ensinamentos de Sidarta Gautama, o velho Buda, que nos ilumina para aceitarmos as nossas imperfeições, uma vez que isto nos causa dor e nos prende no ciclo incessante de encarnações.

Em todos esses homens e mulheres, a luz da fé no olhar. A entrega silenciosa e amorosa ao plano espiritual em busca de paz, orientação, proteção, sabedoria na prática de seus atos. Crescimento. Aconchego para seus sentimentos de revolta, tristeza e perplexidade. Aceitação, por fim. Acho que apenas o fato de todos sermos irmãos, em nossa humanidade, nos faz pensar no que somos hoje e no futuro que podemos desenhar. Sem animosidade por diferença de crenças, cores e hábitos. Sem miséria e guerras estúpidas, como todas de resto são. Porque realmente está em nós o poder de mudar nossos atos, trilhando novos caminhos. Afinal, fundamentalmente, somos os mesmos.”

Para conhecer as descobertas de outros viajantes, veja AQUI.

Por Luciana Leite, juíza, de São Paulo.

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